A Festa de Shaḇuôt (Pentecostes)

1. A relação da Torá com a Festa da Colheita, chamada Shaḇuôt

 

As festas da Torá (em hebraico chamadas de mo‘adim, que significa “festas solenes”, “encontros fixos festivos”, etc.) são muito mais que construções culturais, visto que os astros foram criados e estabelecidos em suas órbitas para regular objetivamente os festas solenes, como dito literalmente em Gn 1.14 (que as traduções em geral obscurecem[1]):

 

Haja luzeiros no firmamento dos céus, para fazerem separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais, para os mo‘adim (festas solenes), para dias e anos”.

 

Portanto, são instituições universais pertencentes ao ciclo cósmico (sua regulação dependem da natureza e não de um mecanismo humano), dadas por revelação e as mesmas devem podem ser compreendidas numa escala de 5 níveis: nível agrário, nível societário, nível messiânico, nível profético e nível histórico-escatológico. Assim sendo, as três principais festas de peregrinação do Antigo Israel ocorrem de acordo com o ciclo agrário do calendário bíblico e, por isso, em princípio, são celebrações de gratidão pela sustentabilidade divina. Entretanto, estas festas recebem na experiência de Israel uma resignificação especial: situadas no plano agrário (que atende as necessidades básicas fisiológica e ecológica) são elevadas simultaneamente para o plano da provisão e sustento espiritual de Israel, desdobrando a História em 03 etapas: daí a tríplice divisão do livro de Shemôt (Êx):

 

As 03 divisões do livro de Êxodo     Releitura em Levíticos 23 (as festas promovem releitura exodal):
1ª) Libertação

(Êx 1.1-15.21) –

Shabbat; Festa da Páscoa (Pêssaḥ) e Pães Asmos (Matsôt);
2ª) Provisão

(Êx 15.21-20.23) –

Primícias (Bikurîm) e Festa das Semanas (Shaḇuôt);
3ª) Habitação

(Êx 24.1-40.38) –

Festas das Trombetas (Yôm Teruá); Dia do Perdão (Yôm Kippûr); Festa dos Tabernáculos (Sukkôt)

 

Detenhamo-nos na Festa de Shaḇuôt (sendo a Festa da Colheita, shaḇuôt significa “semanas”, pois ocorre sete semanas após o Pêssaḥ, ou seja, no 50º dia após a Páscoa, daí o nome grego “Pentecostes”). Nesta Festa, a tradição judaica celebra a outorga da Torá no Sinai. Na realidade, de acordo com o texto de Shemôt (Êx) cap. 19 em diante, a perícope narra a entrega das duas tábuas de pedras (os 10 mandamentos) no período desta Festa, entretanto, conforme afirma Rashi[2], todas as 613 mitswôt da Torá estão incluídas nos respectivos dispositivos do Decálogo, chamado de Dez Mandamentos, mas que na realidade são 10 enunciados que sintetizam todos os 613 mandamentos da revelação (assim a entrega do Decálogo, por metonímia, é a entrega da revelação da Torá), por isso o texto de Êx 24.12 diz: “Então disse YHWH (ADONAY) a Moshé: Sobe a mim ao monte, e fica lá; e dar-te-ei as tábuas de pedra e a Torá, e as mistwôt que tenho escrito, para os ensinar”. Então, qual seria a relação da outorga da Torá com a Festa de shaḇuôt? Por que a entrega nesta festa solene?

As sete semanas de shabuôt transcorriam no período da colheita da cevada e, conforme descrito em Ex 34.16, shabuôt era celebrada depois deste período e no início da sega do trigo, por esta razão, ela é também chamada de Festa das Primícias, do hebraico בִּכּוּרִים. (bikûrîm).

A cevada e o trigo eram os principais cereais para produção do pão, o principal alimento da sociedade agrícola. Sem dúvida, há uma transposição de significado da Festa da Colheita para o evento do Sinai, pelo fato da Torá ser agora a principal fonte de alimento e sustento espiritual do Povo da Aliança, fazendo do próprio povo (alimentado) a colheita do Eterno (pois são aqueles que acolhem sua Palavra absorvendo-a em seu interior para gerar fruto na sociedade). Porém, há mais aspectos envolvidos a serem explorados no tópico adiante.

 

2. A tradição da leitura de Rût e a imagem da mulher na Festa de Shaḇuôt

 

Na Festa de Shaḇuôt a tradição judaica lê o livro de Rût, no qual a protagonista homônima ao nome do livro é uma trabalhadora da colheita que se casa com o personagem chamado Bo’az, seu parente resgatador. É uma ilustração de uma nação liberta que, com o evento da outorga do Decálogo no Sinai, é desposada por YHWH (ADONAY), seu resgatador. Entretanto, um importante elemento deve ser adicionado. Rût é uma estrangeira cuja confissão pactual: “Teu povo é meu povo, teu Deus é o meu Deus” (Rt 1.16) a tornou, no Sinai, um símbolo daquele misto de estrangeiros que acompanharam os israelitas (Ex 12.38), mas, se tornaram com Israel um só povo, revelando com isto a universalidade de Aliança. A perícope de Shemôt (Êx) 34.10-28 define as tábuas do Decálogo como o documento testemunho (certidão) do casamento monogâmico de um povo unido com YHWH (como depreendido por Jr 31.32) e as festas são retratadas como celebração contínua das bodas desta união exclusiva. Aqui cai o paradigma de que a Torá foi dada apenas a Israel, ledo engano, pois anteriormente o Eterno já havia dito que haveria apenas uma única Torá para o nacional e o estrangeiro (Ex 12.49), ou seja, uma Torá universal. Na realidade, o ETERNO derruba a barreira da separação tornando os gentios conversos agora parte do Israel de Deus (somente os conversos, isto é, os que fazem o caminho da teshuvá ao ETERNO).

Ainda nesta imagem de uma “mulher” relacionada ao povo do Sinai, no Zohar, o rabi Ḥiya denota que as sete semanas de shaḇuôt tem relação com o prazo de sete dias da purificação (restauração física e biológica) da mulher, conforme Wayyqrá (Lv) 15.19, o qual explica que a nação de Israel antes da revelação do Sinai, ainda estava debilitada devido as “impurezas” egípcias física e moralmente. A fim de ter a dignidade de receber a Instrução (Torá) do Eterno, o povo teve que se purificar durante sete semanas (49 dias), que representa o quadrado dos sete dias de espera da mulher, antes de sua purificação integral[3]. Mas esta purificação não é para o povo de Israel ser um fim em si mesmo, antes, visa prepará-lo para uma missão, conforme o tópico seguinte.

 

3. A tradição da Torá em Shaḇuôt com a Berit Ḥadashá

 

Na outorga da Torá no Sinai, segundo o Midrash ocorreu o fenômeno da Torá ser ecoada em 70 idiomas[4] (visto que muitos gentios acompanharam os israelitas na saída do Egito – Ex 12.38 – como dito anteriormente), em meio ao fogo e através de vozes sobrenaturais, por isso, o texto de Êxodo 20.18 declara claramente:  וְכָל־הָעָם רֹאִים אֶת־הַקּוֹלֹת  cuja tradução literal seria: “E todo o povo estava vendo as vozes…”, mas, como é possível “ver” as vozes? Não seria “ouvir” as vozes? A escolha do verbo “ver” neste texto tem relação com o que será explicado à luz da Berit Ḥadashá mediante o livro de Atos dos Apóstolos cap. 2, num evento também ocorrido em Shaḇuôt (Pentecostes). Neste evento, ocorreram os mesmos fenômenos de se falar em várias línguas (aos judeus oriundos das várias nações enumeradas no texto) e a manifestação do fogo divino, visto nas “línguas repartidas como que de fogo”, cujas línguas representam as “vozes” visualizadas em Êx 20.18.

Entretanto, por qual razão a imersão da Rûaḥ HaQodesh se deu em Shaḇuôt? Ou seja, na Festa que celebra a outorga da Torá? O profeta Yirmeyahû (Jeremias) responde quando profetiza sobre a Berit Ḥadashá (Nova Aliança) que será concluída no Olam Habbá (Mundo Vindouro), de acordo com Jr 31.31-33:

 

31 Eis que vêm dias, oráculo de YHWH (ADONAY), em que farei uma Nova Aliança (Berit Ḥadashá ) com a casa de Israel e com a casa de Judá.

32 Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles invalidaram a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, oráculo de YHWH (ADONAY).

33 Mas esta é a Aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, oráculo de YHWH (ADONAY):

   Porei a minha Torá no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.

Em Atos 2, na Festa de Shaḇuôt, agora os judeus presentes recebem a chancela da aliança com uma nova entrega da Torá, porém, não mais em tábuas de pedras, agora grafada no interior do ser dos partícipes desta nova fase de Israel em semear as boas novas desta Nova Aliança, por meio da efusão da Rûah HaQodesh (em termos tradicionais, o “Espírito Santo”), nas tábuas de carne do coração (Ez 36.26).

Israel “morreu” para o Egito, ressurgiu como nação e Moshé, representante do Povo, subiu ao Sinai (símbolo da região celestial) para que Israel pudesse receber a Torá, sem sua subida a Torá não poderia ser dada. O paralelo é impressionante, pois na Berit Ḥadashá (NT) Yeshúa morreu (para este mundo), ressuscitou (numa realidade trans-histórica) e subiu aos céus (regiões celestiais) para nos outorgar a Rûaḥ (se ele não subisse, a Rûaḥ não poderia ser dada – Jo 16.7), a Rûaḥ efetivou a luz da Torá no interior dos seguidores originais (porque a Torá é luz dos povos, conforme Sl 119.105, 142, 151; Is 8.20; 51.4; Pv 6.23), da qual se tornaram testemunhas revestidas de poder às nações, no mesmo Espírito de poder, sabedoria, entendimento e discernimento do Mashiaḥ (Is 11.2; 61.1-3). Deste modo, na História da Salvação, o destino da Comunidade liberta é ter a Torá escrita no seu interior e na sua vivência, como meio vivo de difundir as boas novas, numa nova vida ética e cheia de bons frutos, esta renovada compreensão faz parte já aqui da Nova Aliança que se concretizará no Olam Habbá (Mundo Vindouro). O fogo divino que estava no Sinai ecoando a Palavra em diversas línguas, agora no arco da História saltou do Sinai para repousar em cada discípulo tornando-os em veículos vivos da Torá (Instrução) do Eterno aos povos, a partir de Jerusalém. Deste modo, a orientação que os discípulos receberam para permanecer em Jerusalém (Lc 24.49; At 1.8) até que do alto fossem revestidos de poder sobrenatural (poder este com os mesmos elementos teofânicos do Sinai) fez a profecia de Yesha‘yahû  se cumprir (Is 2.3):

 

De Sião sairá a Torá e

de Jerusalém a Palavar de YHWH (ADONAY)”.

 

Neste paralelismo sinonímico, “Sião” está para “Jerusalém” tal como “Torá” é a “Palavra de YHWH (ADONAY)”. Com efeito, a partir do “Pentecostes” em Jerusalém, chegou a época da colheita de almas para o Eterno, para produção do fruto do Espírito (Gl 5.22), na mesma essência de gratidão e alegria de Shaḇuôt. A analogia é simples e clara, se Yeshúa HaMashiaḥ é a encarnação da Torá, ou seja, a Torá Viva que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14) e a Rûah HaQodesh é chamada de Espírito do Mashiaḥ que implanta e molda nos seus seguidores a imagem do Mashiaḥ (Rm 8.9; 2 Co 3.3), então, concluí-se que em Atos 2 ocorreu a transmissão e outorga da Torá Viva (Yeshúa) à pequena Comunidade judaica renovada no Cenáculo, consagrando-a no 50º dia após Pêssaḥ como corpo extensivo do Mashiaḥ, fazendo de cada discípulo uma Torá ambulante e vivencial, com a missão de divulgar a liberdade da redenção e, ao mesmo tempo, de serem testemunhas para resplandecer a Instrução do Eterno (que é a sabedoria em lidar com esta liberdade adquirida pela redenção) a todo o restante de Israel e aos demais povos, línguas, tribos e nações. A liberdade garantida no êxodo tem sentido somente se esta liberdade conduz a Comunidade liberta para receber a Torá no Sinai (a Torá é a instrução divina para melhor viver, sua função é disciplinar a liberdade, pois, liberdade sem disciplina leva à libertinagem de pecar, errar o alvo, por isso, na Torá há a sabedoria e a justiça de como fazer o uso sábio da liberdade adquirida[5]).

Assim, a liberdade garantida pela redenção do Mashiaḥ nos conduz a uma nova vida, plena e guiada pela Instrução Divina (Torá), porém, plena somente se iluminada pelo Seu Espírito a fim de garantir o êxito de nossa liberdade e de nossa missão neste mundo, visando que sejamos uma melhor versão de nós mesmos, como novas criaturas no Mashiaḥ ressuscitado, ou seja, num viver ético instruído e iluminado para completarmos e elevarmos este mundo até que chegue o Olam Habbá (o Mundo Vindouro).

Que esta seja a difusão das boas novas a todos os povos e a todas às línguas!

Ḥag Shabuôt Sameaḥ!

Feliz Festa de Shaḇuôt!


Referências bibliográficas:

[1] As traduções da Bíblia de Jerusalém, da Bíblia TEB, da Bíblia do Peregrino versam o substantivo plural mo‘adim como “festas”. O termo hebraico pode ser usado para “lugar de reunião” ou “tempo designado para reuniões e assembléias solenes”, ou como “tempo de festa” propriamente dito.

[2] Torá-Rashi: Sêfer Shemot-Êxodo – com comentário de Rashi. São Paulo: Ed. Maayanot, 2016, p. 274

[3] MELAMED; DIESENDRUCK, Torá, a lei de Moisés, p. 361.

[4] Conforme narrado no Midrash Rabá de Bemidbar (Nm) e Debarîm (Dt).

[5] BLECH, Benjamin. O mais completo guia sobre Judaísmo. São Paulo: Ed. Sêfer, 2003, p. 179; MCMURTY, Grady Shannon. As festas judaicas do Antigo Testamento – seu significado histórico, cristão e profético. Curitiba: Ed. Santos, 2012, p. 69.