A Tabela com o Calendário das Parashiôt da Torá: 

Clique aqui: Parashiot HaTorá. (Obs.: Na coluna de numeração das parashiôt há em cada número um link que remete para o vídeo rico e explicativo de estudo do judaísmo nazareno sobre a respectiva porção textual de leitura. Esta tabela também traz as datas das grandes festas bíblicas).

Compreendendo os fundamentos históricos do ciclo de leitura da Torá

 

Introdução

A experiência da queda do Estado Judaíta com o exílio babilônico (Reino de Judá) em 586 AEC foi atroz e devastadora, principalmente no campo da fé. Não há dúvida de que os acontecimentos de 597 a 586 AEC produziram uma grande crise para a identidade judaíta coletiva (destruições e deslocamentos demográficos). Pelos padrões do Antigo Oriente Próximo, a derrota de uma nação indicava a impotência de seu deus patrono e nacional. Quando a Babilônia derrotou os judaítas, os mesmos arrefeceram drasticamente na fé e acreditou-se maciçamente que YHWH era um deus inoperante, inativo, impotente contra os deuses babilônicos. Na mentalidade das populações judaítas o caos prevaleceu e as “águas” de Tiahmat (deusa babilônica) invadiram a terra santa (Israel). Até o momento, a mentalidade geral estava enraizadamente apegada a três pseudosseguranças, baseadas em tradições bíblicas, contudo, pensadas sob uma perspectiva mágico-religiosa.

  • A cidade de Jerusalém e o Templo, sendo habitação de YHWH, eram instituições inexpugnáveis (Sl 46);
  • A dinastia davídica era perpétua, nunca faltararia um rei no trono (2Sm 7.12-16);
  • O Povo eleito não será extinto (de fato não será extinto, mas a irresponsabilidade traz consigo um alto preço).

Entretanto, entre os membros da alta classe alta, a amarga experiência de derrota fez com que diversos grupos procurassem superar esta crise produzindo reflexões para dar sentido ao colapso de Judá.

No campo espiritual, o Sopro Sagrado de YHWH (a Rûaḥ HaQodesh) produziu uma série de atitudes pastorais  nos exilados e dispersos a fim de reconduzir e fortalecer a fé israelita mediante a amarga experiência do exílio, para que estes se conscientizassem e assumissem a responsabilidade do fracasso, entendo que a fatalidade ocorrida foi um juízo tão largamente advertido anteriormente pelos profetas. A crise foi importante para levar os judaítas a se desapegarem dos supostos “amuletos” de fé (pseudosseguranças) e se voltarem à Palavra do Eterno com verdadeira teshuvá (mudança) de vida. De fato, a experiência foi tão profunda que a arqueologia até hoje não encontrou nos estratos do período Pós-Exílico do território israelita nenhum vestígio sequer de objetos idólatras ou de culto cananeu. Além do mais, foi um período de profunda produção literária para a composição complexa da Bíblia Hebraica. Entre tais ações pastorais surgiu o hábito de se reunir semanalmente para a leitura das antigas tradições sagradas que sobreviveram (provavelmente em fragmentos) mediante a destruição e para ouvir dos sobreviventes a rememoração das grandes tradições e promessas do passado. Tal prática prosseguiu no Pós-Exílio, no período do Segundo Templo, quando surgiram as primeiras sinagogas. No tempo de Esdras e Neemias, o estudo da Torá foi restaurado, e tal procedimento semanal foi imprescindível para o retorno às raízes da identidade judaica e reconstrução idealizada da Comunidade de Yehud (até então como mais uma província do império persa), tendo como tema enfático o retorno à Aliança com YHWH.

Na esteira de todo este processo, a Torá foi subdividida em porções para facilitar a leitura e o ensino ao Povo da Aliança, nestes encontros semanais, aos sábados. Por volta de 130 AEC, os fariseus ampliaram a restauração dos ensinamentos da Torá ao povo. Tal atuação foi muito importante, pois preparou o povo e as classes dirigentes para ouvir a mensagem de boas novas que veio em seguida ser pregada pelo ministério de Yeshua. Do mesmo modo como esta atividade antecedeu a primeira vinda do Mashiaḥ, certamente que se torna importante hoje nos mesmos moldes revigorar esta atitude regular de preparar os ouvintes hodiernos, a fim de levá-los a compreender e receber as boas novas em face do segundo advento glorioso do Mashiaḥ.

Entretanto, a história bíblica nos revela que a prática da leitura pública da Palavra de Deus escrita vem de época muito antiga, que foi contínua ao longo dos séculos e consolidou numa atividade regular de vital importância identitária para a Comunidade da Aliança:

Época de Ref. Bíblica Texto
Moshé (Moisés) Ex 24.7 “E tomou o Livro da Berit (Aliança) e o leu aos ouvidos do povo, e eles disseram. Tudo o que YHWH tem falado faremos, e obedeceremos.”
Rei Josafá 2 Cr 17.9 “E ensinaram em Judá, levando consigo o Livro da Torá de YHWH; e foram a todas as cidades de Judá, ensinando entre o povo.”
Rei Josias 2 Rs 23.1-2 “Então, o rei ordenou, e todos os anciãos de Judá e de Jerusalém se reuniram a ele. O rei subiu à casa de YHWH, e com ele todos os homens de Judá, e todos os moradores de Jerusalém, os sacerdotes, os profetas e todo o povo, desde o menor até ao maior; e leu aos ouvidos deles todas as palavras do Livro da Berit (Aliança), que se achou na casa de YHWH.”
Yeshua (Jesus) Lc 4.16-18 “E, chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de shabbat, segundo o seu costume, na sinagoga, e levantou-se para ler…”
Os Apóstolos At 13.14-15 E eles, saindo de Perge, chegaram a Antioquia, da Pisídia, e, entrando na sinagoga, num dia de sábado, assentaram-se; E, depois da lição da Torá e dos Profetas, lhes mandaram dizer os principais da sinagoga. Homens irmãos, se tendes alguma palavra de consolação para o povo, falai.”

 

Conforme atestado pelas passagens acima, tanto Yeshúa quanto seus seguidores tinham o hábito de frequentar a Sinagoga para participar da leitura da Torá (e da haftará) a fim de ouvir o shiur (transmissão, estudo, exposição, etc.) do texto lido. Embora, o evangelho de Lucas mencione somente a parte da haftará que Yeshúa recitou, todo aquele que conhece a tradição judaica sabe que a leitura da haftará está vinculada a uma parashá, ou seja, a um texto da Torá. Mas o que são estes conceitos? Parashá? Haftará? Leia abaixo os significados destes termos e suas respectivas funcionalidades:

 

  1. Conceituação dos termos.
  • “Parashá” – פרשה – significa “porção, parte, exposição, etc.”- A Torá está divida em 54 “parashiot” (plural de “parashá”), correlacionadas às semanas do ano judaico, que segue o ciclo lunar, começando por Bereshit (Gênesis) cap. 1 e concluindo no ano seguinte com a leitura de Devarîm (Deuteronômio) cap. 34, na festa de SimḥatTorá (Alegria da Torá).

Funcionalidade. Cada “parashá” inicia com uma palavra-chave (uma das palavras principais que aparece logo no início do trecho de cada subdivisão), um leitor atento observará que todo o trecho (“parashá”) de certo modo gravita em torno desta palavra-chave, direta ou indiretamente. Esta palavra-chave será o nome da respectiva porção, pois, de certo modo, aduz a centralidade da mensagem da respectiva porção textual.

  • “Haftará” – הפטרה – significa “conclusão”- Na leitura semanal da Torá, não é realizada somente a leitura da Torá. A porção de leitura da Torá é acompanhada da leitura de algum texto dos Nevi’im (Profetas).

Funcionalidade. Através da leitura complementar (“Haftará) se obtém a interpretação e a ampliação do sentido daquilo que foi lido na Parashá (porção da Torá), ou seja, um modo de se ter a conclusão do ensino da Torá. Visto que os profetas tem a função primordial de ratificar a Aliança, na via de continuidade do ministério de Moshé, e os Ketuvim contém experiências de profunda fé na fidelidade à Aliança e à Torá, a tradição bíblica demonstrar estar em conformidade com a Torá e, portanto, complementa a atualização de seu sentido.

  • “Berit Ḥadashá” – בְּרִ֥ית חֲדָשָֽׁה – significa “Nova Aliança”, “Aliança Renovada”, etc. – Os seguidores de Yeshua, que o receberam como o Mashiaḥ prometido para Israel, compreendem que o sentido do Tanak (Bíblia Hebraica) se torna pleno através da figura central de Yeshua (de sua pessoa, palavras e comportamento).

Funcionalidade: Alguns textos dos Escritos Nazarenos (textos da Berit Ḥadashá ou Novo Testamento) segue como sugestão de leitura que tem correlação temática com a parashá. Assim, a Haftará se torna um complemento conclusivo parcial, enquanto que cada porção de leitura da Berit Ḥadashá é lida como efetivo cumprimento revitalizado que prossegue para uma concretização definitiva.

Sendo um procedimento revigorante, construtivo e válido (sempre atual e atualizador), hoje a tradição viva do judaísmo (ortodoxo, messiânico, nazareno, etc.) segue a leitura semanal da Torá em suas porções tradicionais, as quais concederam sustento ao Povo da Aliança pelo fio dos séculos.

 

 
 
 
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